ALGEMANDO AS PALAVRAS



Ficamos cara a cara,
você deitado no sofá
reclamando da vida
e
 eu te escutando.


Fiquei grávida;
pari flores logo pela manhã chuvosa
quando acordei.
Tudo estava encharcado:
o meu sonho,
a tua barba que desapareceu,
as vidraças sujas,
as heras assanhadas,
a minha cama encantada.


Deito nela
e
durmo com você.


Ai a chuva foi inundando tudo,
afogando as ilusões,
enchendo de água
a minha alma calada,
nublando o dia
com mais um nada.


Deixei que ela me levasse
numa correnteza
e me jogasse contra um rochedo
enorme.
Algo em nós dois acorda.
Algo em nós dois dorme.


Estranhos
são os caminhos percorridos
pelo coração
que se desdobra à noite
e vai procurar o amor escondido
no tempo,
trazendo todas as palavras
caladas, todos os sonhos
do vento.


Ficamos cara a cara
e a sós mais uma vez:
você deitado no sofá
e eu como sempre
vestida de ti,
algemando as palavras
de amor ao pé da cadeira
para que elas, dessa vez,
(apenas dessa vez)
não pudessem fugir.








Karla Bardanza















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