NÃO PRECISO MAIS DE MIM



 Toda a distância que nos une e nos separa é apenas uma palavra não dita. 
Ignoro essa coisa pequena e infame que não aumenta, nem diminue o meu calendário sem números e sem devir.
Todo dia é um excesso perigoso quando eu caminho sem olhar para frente ou para os lados.
Mesmo com todos os sinais fechados, ultrapasso a mim mesma e nunca freio. 
Quase nada me apavora, quase nada devora a minha alma ou as minhas entranhas quando o Sol cala e consente.
A vida já foi mais indecente, mais voraz. Já tive tanta fome. 
Não me lembro da última vez que comi os teus olhos, 
que bebi a eternidade nas tuas mãos sem luar, sem essas linhas do destino
que cruzaram e se embolaram com as minhas.
Faz tanto tempo que tua pele era meu corpo.
Faz tanto tempo que fomos. 
Se é que fomos. Talvez nunca tenhamos sido. 
O amor nunca sabe que é amor.
O amor nunca soube muito como me entender, como sentar perto de mim, como falar as coisas que eu precisava tanto aprender ou ouvir. 
Não sinto mais falta do que esqueci de ter ou do que a vida esqueceu de me oferecer. 
Há tantos silêncios nas minhas entrelinhas. Há tantas metáforas em estar sozinha. 
Decifro-as com calma e delicadeza sem decodificar todas. 
O melhor enigma é ainda a resposta que eu nunca terei 
porque esta resposta já não vale mais a pena. 
Que morram todas as palavras, todas as imagens, 
todas as coisas que um dia me fizeram selvagem. 
Não preciso mais de mim, não carece mais esperar.



Karla Bardanza









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