SOU SERVA DA POESIA QUE ME SERVE


Sou serva da poesia que me serve.
Abaixo a cabeça para as figuras
de linguagem que carrego
nas mãos sem bagagem,
nas pregas da saia,
na pele 
sempre pronta
quando eu ainda
estou tonta
na minha ousadia.

Sou cativa da poesia viva,
dessa poesia que abre a janela
para eu respirar quando tudo
é quase um claro enigma
e alguma vertigem.
Sou escrava dessa poesia
que faz amor comigo todo dia
e todo dia me deixa virgem,
me deixa santa, me deixa pura
e puta.

Sou submissa a todas as palavras
que me faltam quando lembro
de você, quando estou fraca,
quando estou na boca do prazer,
quando deixo de ser o que sou
e sou todos os outros,
todas as outras
que gritam 
em
mim.

E essa dependência 
me faz independente,
me torna tão maior, tão esquisita,
tão doente e aflita.

E essa dependência
ninguém entende
ou
explica.
Ninguém a não ser eu mesma.

Todos os dias,
ofereço as minhas mãos
e
ela me algema
e
ela corta os meus pulsos
até as palavras sangrarem
e escorrerem poemas.
Não sinto dor alguma,
não sinto nada.
O meu sofrimento é sempre elegante:
ele nunca dura mais que um instante.
Peço a palavra e falo por nós dois.

Sou serva da poesia que me serve
e mesmo carregando essas correntes todas,
minha alma continua livre e leve.



Karla Bardanza









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