A ALIANÇA


De repente ela notou que havia inchado: as mãos, os pés, o rosto, todinha. Ficou preocupada mas não foi ao médico. A primeira providência foi tirar a aliança.Já não mais cabia no dedo tão gordinho.Pegou a aliança e encarou-a com uma dor, aquela guardada no peito por tanto tempo.Lembrou do início...e o início tinha sido maravilhoso.Mas, agora tudo estava tão chato! Ele, distanciado, ilhado em algum lugar e ela nem sabia como chegar até lá. Desejo morto, cama fria, cansaço e acomodação.Por muitas vezes pensara em jogar tudo para o alto, chutar o balde, como dizem.Não podia ou será que não queria? Carregava o casamento ou um fardo? Carregava um casamento que era um fardo.
Sim, era um fardo pesado.Por instante pensou nos sonhos românticos, na delicadeza que havia perdido ao longo da vida e todas as vezes que tinha acreditado no amor.Porém o amor não era culpado, pensou tristemente.Então, se culpou.
Não chorou. Foi cuidar da vida: lavar a louça, varrer a casa, fazer o almoço dele.Ele já ia chegar logo.Correu com tudo e prontamente ao meio-dia, o almoço estava pronto.Como de costume, ele chegou, deu aquele beijo com gosto de rapidez sentou, ligou a tv e a ignorou. Ela nunca almoçava com ele.Às vezes, nem almoçava. Ficava na cozinha com o cachorro e as gatas olhando para o dia de ontem, perdida em pensamento, em sonhos e promessas que nunca cumpria. Quando acordou, ele já tinha ido embora.
O tempo foi seguindo seu curso, ela inchando e ele nem havia notado que ela nem usava mais a aliança. Acabou perdendo o costume de usá-la, também já tinha perdido o costume de estar casada.Parecia mais uma empregada sem uniforme.
Quase todo dia, ela inchava mais. Ele ia para o trabalho, voltava e não via que ela estava parecendo uma bolinha.Ela já nem quase andava, parecia flutuar no ar.Preocupada, amarrou um barbante na perna e o prendeu embaixo do sofá. Era um barbante bem longo e assim, ela podia locomover-se pela casa toda.Não saía de casa mesmo!Era estranho flutuar mas, era uma delícia também. Ela adorava a sensação de não estar no chão e toda vez que isso acontecia, ela ficava tão alta que podia ver um cavalheiro triste sentado numa pracinha tão distante dali. Compadecia-se dele e gostava de vê-lo todo dia ali, quieto, olhando para dentro apesar de parecer observar a paisagem.
Um dia, estava flutuando pela casa quando o cachorro de tanto se coçar empurrou o sofá, soltando o barbante. Ela gritou por socorro mas, ele vendo o costumeiro futebol, nem ouviu.Ela saiu feito um balãozinho de gás pela janela da cozinha e foi pelo ar. Nem sentiu medo.Adorou aquela sensação de liberdade, de estar livre dele, da vida, dela mesma.O barbante amarrado acompanhando-a parecia uma tornozeleira, um enfeite belo.
Quando deu por si, estava na mão do cavalheiro entristecido da pracinha, que desta vez sorria embevecido, olhando para ela. Desde aquele dia, ela tornou-se o seu bem maior, a sua alegria e o seu tesouro.Ele aprendeu a flutuar com ela e desde então, estão sempre juntos e felizes. Já me disseram que os dois podem ser visto flutuando em noites enluaradas, cheios daquela felicidade que só os que amam verdadeiramente conhecem. Depois que ouvi esta história, nunca mais parei de olhar para o céu e de pensar que só podemos flutuar com o coração leve.

Karla Bardanza

Comentários

Luciene Medeiros disse…
Oi Karla!
Seus textos são lindos... postei um deles no meu blog, mas se você se incomodar tirarei tá bom.
Segue o link do meu blog: http://lucienedemedeiros.blogspot.com/
Bjs!!!

Postagens mais visitadas na última semana