ANTES QUE SEJA ONTEM



Essas flores germinaram de repente em mim. Acordei com elas quando nada mais brotava do que eu via e os meus pés arrastavam répteis cansados.Sei que os meus pensamentos são pétalas e os meus desejos são toda a beleza que alguém arranca de meu corpo. Eu deixo. Penso apenas nas coisas que morrem por entre os meus trópicos com toda a delicadeza que o prazer quase precisa.

A vida floresce de meus dedos à beira do delírio, na esquina da nudez e da ousadia. Gosto de morrer: fecho as portas, apago a luz e me mato sem classe nenhuma, sem pressa. Minhas atrocidades me comovem, me movem. Sou irascível comigo mesma. Enfio a faca e furo os olhos do passado. Não quero mais ver o que me cega.

Esses ocasos são naturais, fico expressiva como um inseto. Fico pobre mais uma vez e no escuro e penso que eu ainda não aprendi a amar direito. Não faz mal. Retalho as entranhas, sangro com a boca fechada, derramando apenas o que é necessário derramar, quando a vida já não é e nem dá.

Essas flores abertas em mim me custaram caro: perdi quem me lia, perdi um punhado de coisas e de pequenas satisfações. Tudo bem: o vento pode ainda me escutar, a lua ainda é a minha amante fiel e tudo que tem que ser, com certeza será. O negócio é saber como tropeçar. Todo o que vier depois é apenas ganho e não há ganho sem perdas.

Quem viver, pode sentar e apreciar as minhas maldições e verdades antes que seja ontem, antes que seja tarde.




Karla Bardanza









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