A DOENÇA E A METÁFORA


Por dois dias e noites,olhei minha dor com olhos de morte.Sucumbi, chorei a surpresa funesta.Dor progressiva rasgando meu ombro, meu braço esquerdo, minha vida.Fiquei inerte, sentindo o fardo, lambendo a ferida.Na dor, perdi até a minha própria poesia.Uma infecção de mim mesma.Ela está ainda aqui lutando com os meus ossos,mordendo minha paz, mas a luta não está mais desigual.Brigo com ela através do meu sangue.Brigo, discuto, bato nela e pela janela,observo que o mundo continua o mesmo.Apenas eu parei em meu terremoto particular, apenas eu fiquei cara a cara com o furacão.
Fiquei pensando em minha vulnerabilidade diante da dor e da doença.Fiquei questionando
O que está experiência queria me dizer.Sei que a doença pode ser uma ocasião de despertamento e, sinceramente, creio que a minha está gritando:”pare, olhe para si mesma”.Minha restrição trouxe a atenção de minha mãe.Virei um bebê de novo.Como não consigo levantar o braço esquerdo, minha mãe me veste, penteia e tudo mais..Minha filha e minha irmã também são minhas babas.Contudo, minha mãe se excede no papel.Agradeci a Deus por ter minha família comigo, por ter esse cuidado singular e especial que tantos não têm.
Sei que minha doença é a minha metáfora.É um momento para me afastar do mundo e mergulhar nos braços dos que me amam.Sei também que esta dor revela o quanto preciso das pessoas, o quanto ter minha mãe do meu lado é importante.Não sou uma ilha, da mesma forma que dependo das pessoas, meu trabalho também depende de mim.Faço falta de alguma forma.
Há uma objetividade nesta doença, um sentido que estou procurando dar.Tenho pensado no passado, reavaliado atitudes e esquecido o futuro.Estou permitindo que ele siga sem a minha presença constante.Tenho sentido a necessidade de saborear a alegria que o meu corpo proporciona e,sobretudo, tenho refletido sobre a doença e a libertação que ela pode trazer, ainda que seja na restrição.
Agora, resta a espera e o tempo para que a cura chegue e, finalmente, eu possa voltar à ativa, digitar com as duas mãos, andar de ônibus, trabalhar, sair.Creio que muitas pessoas contam com o tempo também.Enquanto o momento certo não chega, meu corpo diz ao mundo que esta é a minha hora insular.Vou aproveitar então para olhar para dentro e dormir abraçada com o meu coração.

Karla Bardanza

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