UMA VIDA EM BRANCO


Ela sente aquele cansaço convencional depois que chega em casa.Fica muda olhando sua família e um estranhamento bate à sua porta.Não gosta de estar cansada, não gosta mais de si e de mais nada.Tira a roupa, conversa um pouco e sente aquela inquietude na alma.Brasa queimando, esqueleto no armário incomodando.Liga para o namorado.Ele não diz nada que a acorde por dentro .O “eu te amo” já nem mais existe.Ela havia cansado de dizer e não ter resposta.Cansou também de falar de sonhos para ele não escutar.Desliga o telefone com uma leve dor, sente uma máquina no peito, sente que a noite nem mais estrelas tem.E a lua por onde andará?
Senta, assiste um pouco de televisão enquanto que aquela angústia continua a mastigar a sua alma.Fica ali sentada em frente aquele aparelho, vendo e ouvindo nada, salvo a sua agonia.Como queria estar apaixonada!Como queria um amor diferente, queria muito, queria tanto...Pensa no namorado, tanto tempo de quê? Casariam ainda?Casar para quê? Para morrer de tédio no sofá...Ele tão diferente, tão pé no chão, tão prático...Subitamente sente que não tem mais sonhos, sente que não há mais amor, talvez acomodação, talvez...Sexo políticamente correto sem emoção...
E nem mais sabe se algum dia teve.Sua mãe fala-lhe algo...O assunto é sempre o mesmo: dinheiro – sempre o dinheiro.Escuta e nada responde.Quando olha no relógio a noite quase está no fim. Liga mais uma vez para o namorado.Ele fala do dia estressante, dos problemas, de tudo que ela já sabe...Ela ouve muda.Então diz que quer ver um filme, mas ele responde friamente, “você sabe que não gosto deste ator!”, e ela mais uma vez muda...”Quero dormir cedo tá!”. Ela entende que está na hora de desligar o telefone...E desliga olhando o poster do filme no jornal.Vai ao banheiro, tira a roupa e fica ali se olhando com olhos curiosos e sem luz.O corpo não é mais o mesmo tampouco ela é a mesma.De repente, se dá conta de que é uma mulher.Olha seus seios, seus pêlos, sua pele.Abre o chuveiro e em líquido afeto pensa que não escreveu um livro, não teve um filho e nem plantou uma árvore.E já nem sabe se é uma mulher mesmo...Lembra de uma redação de um concurso que não conseguiu escrever...Falar sobre sua vida...Que ironia! Sua vida...Vida? Eu tenho uma vida?Pensa e pensa e chora baixinho embaixo do chuveiro...Sua vida era aquele papel que deixou em branco, era o que não acontecia, era a perda diária de sonhos, de alegria, de si mesma.Sua vida...Tomou seu banho, enfiou o pijama de ursinhos e deitou.Dormiu para sempre.


Karla Bardanza

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