POEMA COM CARA DE PROSA



Os deuses nem morreram,
Nem estão loucos.
Os oceanos ainda continuam
Salgados mesmo respirando com
Dificuldade. Os rios correm apesar
De suas águas turvas. O ar entra
Pelas narinas, esteja sujo ou não.

Não penso mais. Coloco ketchup,
Mostarda e molho de alho no pão
Nosso de cada dia. Como todinho
Até o destempero meu.
A vida, amigo, tem gosto de luta.

Estou num bar sujo numa esquina
Qualquer, observando as pessoas
Em suas grandes tarefas de olhar
Apenas para elas mesmas.

Um cachorro faminto chega perto
E lambe a minha mão. Somos cúmplices
Nesta rota precária de acontecimentos.

O bolinho de aipim chega frio.
Não reclamo. Aceito e divido.
A vida está ali dentro e fora
De meu olhar pequeno.
Acaricio a minha tristeza naquele
Cachorro, que sem saber investe
Na amizade.

Olho o relógio, deixo o meu bicho
De estimação provisório ali.
Ele é um guerreiro. Sei que ele vai
Sobreviver.

Saio sem as iscas. Não quero pescar
Tempestades hoje. Caminho lentamente,
Arrastando as nuvens juntos comigo.

Os deuses não estão cegos ou roucos.
A vida está em mim: não digo não a ela.

A maior monstruosidade não é a ferida.
É acostumar-se a ela enquanto o sangue
Circula forte no peito.

A vida é mais que tornados e ventos fortes.
Desastres naturais ou não acontecem. O importante
É recomeçar:
Agora,
Hoje,
Sempre.

Retorno ao bar e levo o meu mais
Novo amigo para casa.



Karla Bardanza

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