PERDÃO ROUBADO


 Se eu te perdoar,
não me perdoarei.

Talvez eu possa perdoar as nuvens
por sua breve existência.
Talvez eu possa perdoar as estrelas
por ficarem tão pouco 
no céu.

Se eu te perdoar,
não me perdoarei.

Perdoa-me também
por ser mais má
do que boa,
por desconhecer o bem.
Esse bem torto
que levanta às seis
e vive de discursos politicamente
corretos.

Tenho tantas sombras
na minha luz:
a escuridão sempre me ajudou
a ver melhor.

Se eu te perdoar,
estarei bem menor,
bem mais tosca,
bem mais isso.

Se eu te perdoar,
serei menos:
menos esquisita,
menos aflita,
menos mulher.

Se eu te perdoar,
não te perdoarei.
Permito-me solidificar
o ar enquanto esqueço.

E se eu morrer
por agora,
antes da mágoa ir embora,
te digo mais uma vez
que nunca te perdoarei
e não te perdoarei
por tudo que fizestes
quando não fez,
por todas aquelas pequenas coisas
que te deixam mais bêbado,
mais morto,
mais,
muito mais,
por essa paz que me tirastes,
pelo próprio perdão
que um dia me roubastes.





Karla Bardanza










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