O CADASTRO DOS INFELIZES

Quadro de Lyle Motley


Posso enlouquecer
com tranquilidade,
fazendo pose para o vento,
abrindo o guarda-chuva sem chuva,
escondendo-me das contas,
dos pesadelos
e de mim mesma
embaixo de uma lesma.

Posso tudo
que o meu consciente me proibe
com o seu olhar chatinho
quando estou quase lá
no primeiro choppinho.

Posso voar, gritar,
fingir, mentir,
morrer.

Posso todas as coisas:
minha (in)sanidade é uma bomba-relógio:
preciso explodir urgentemente,
espalhar-me pelos ares,
chegar em Antares,
perde-me de mim
por ai,
por aqui.

Amarrem minhas mãos
na cama,
dopem-me:
letargia profunda e total.
Não quero lembrar
que amanhã acordo às cinco
e vou amassada e com fé
trabalhar.
Não quero nada que me lembre
que a segunda-feira existe.
É triste demais
a vida nos trilhos, certinha,
o papo politicamente correto,
o X no lugar certo
e a vida na prateleira,
pegando poeira.

Posso e mereço
um pouco de loucura
e indeterminação.
Alguém por favor
mande-me para a próxima dimensão
sem PIS, RG e CIC.
Estou cansada de ser mais um número
engordando o cadastro dos infelizes.

Que venha o Fleetwood Mac me salvar.

Please, um divã.
Ainda vou morrer desse negócio de segunda.
Não aguento mais acreditar nesse tal de amanhã.



Karla Bardanza










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