CHÃO SEM FUNDO



Nada muda

Nada

A porta absurda

Trancada está

E nem fechadura

Tem.



Abro a janela

E estou emparedada.

Tijolos ao redor

E nada mais.



Se estou só?

Ouço apenas

A minha voz:

Eco sem vibração.



Comida fria,

Apenas água na geladeira

E essa dor e essa febre

Ardendo tanto a minha

Língua, íngua.

Não consigo me mover.



Pelo lado de dentro

Te reflito: aflito espelho

Que não me olha nos

Olhos.



A gaveta aberta

Está atulhada de você,

De palavras que morrem

E nunca morreram,

De desespero,

De vontades,

De tudo

Que

Cai

De

Mim

Quando

Não consigo

Fechar os braços

E te segurar

Dentro do meu corpo.



Afundo no

Sofá rasgado,

Nas almofadas

Sem cor, na casa

Sem paz.

Afundo no chão

Sem fundo,

Afundo

No amor.





Karla Bardanza
 
 
 
 
 
E o soneto de Júlio Saraiva inspirado no meu poema
 
 
SONETO DE KARLA (de pé quebrado)



não, não te assustes amada

não temas este chão sem fundo

minha mão direita espalmada

ampara-te das dores do mundo



esquece minha vida mal-afamada

vê, nosso tempo tem só um segundo

a morte jaz num canto esparramada

lá fora brilha um sol fecundo



tua boca maçã boa que envenena

mata-me num beijo assim de repente

e eu mordo tua carne macia e morena



gira o mundo todo em volta da gente

o mar bravo se acalma se apequena

o chão dantes frio faz-se quente



__________

ju




Júlio Saraiva:meu amor, meu amigo,meu parceiro

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