INDO PARA AS ESTRELAS



Enquanto ela gritava, blasfemava descabelada, ele fazia as malas impassível.Ela invisível, ela tão frágil.Ele olhava maquinalmente para o armário e para as roupas alheio a tudo, alheio àquele mundo que agora não fazia mais nenhum sentido, nenhum sentido mesmo.Estava firme em sua decisão.Pensava na outra, naqueles olhos, naquele corpo, no desejo escrito nele mesmo.Maravilha era estar com aquela mulher em seus braços.Como ela era tão diferente de sua esposa, tão doce, tão entregue!Sentiu a paixão subir pelo rosto.Por um momento sentiu vergonha de estar tão apaixonado diante daquela que finalmente via.Olhava para ela com um estranhamento singular.Já nem mais lembrava quando havia deixado de amá-la.Deve ter sido quando ela engordou, ou talvez quando ela cansada dormia sem se incomodar com ele.Aos poucos o desgaste, a falta do aconchego, do amor bem feito.Aos poucos a inevitável deterioração e escapulida que ficou difícil de administrar.E agora a constatação que não queria mais aquele corpo perto dele.A plena certeza de que queria apenas estar com a outra, sentindo o seu cheiro, a sua delícia.


Subitamente aquela mulher parou de gritar, ficou calada e miudinha sentada num canto, apenas olhando aquele homem...Sem mais nada dentro de si lembrou que ele era seu marido.Pensou no início, pensou nas coisas que foram ficando perdidas pelo caminho, na delicadeza, no próprio amor.Viu a filha menor apavorada na porta testemunhando sua perda.Viu que não havia mais como parar a roda do destino...Fechou os olhos e olhou para dentro por um segundo, contou de um até dez e permitiu, apenas permitiu que tudo continuasse acontecer, sem interferir, sem ferir mais a si mesma.


Ele esvaziou o armário, encheu as malas com tudo que era seu, pegou-as, chegou perto da filha e disse:”papai vai morar em outro lugar, só isso, só isso, tá bem?”, a menina nada disse, agarrou mais a boneca, colocou a chupeta na boca e deixou ele passar.Olhou para mulher jogada no canto de cabeça baixa, sentiu um soco no rosto, sentiu sua alma se despedaçar, mas seguiu em frente.Abriu a porta, saiu do inferno.Finalmente, se sentia livre, aliviado, tão cruelmente feliz.Fazia um belo sol mesmo sendo inverno, um sol frio, porém gostoso.Abriu o carro, pôs as malas, entrou, ligou o rádio, arrancou para as estrelas.Enquanto isso, ela continuava no chão e ficou ali por muito e muito tempo, ficou ali mesmo quando a primavera chegou plena, ficou ali o verão todo, ficou ali por uns dois invernos.Ela só percebeu que estava há muito tempo no chão, depois que a filha começou a frequentar o jardim de infância.Era primavera.Notou que suas violetas brotavam tão belas.Sentiu aquela visão tão intensamente, tão viva.Sentiu tanta coisa diante daquele simples vaso de violeta.Percebeu enfim que já tinha sofrido o suficiente, que era hora de dar a volta por cima, de se vestir de flor.


No início teve todas as inseguranças do mundo.Depois entendeu que tinha que recomeçar de alguma forma e recomeçou.No trabalho, notaram logo as mudanças e elogiaram.Sentiu que estava indo pelo caminho certo.Cada vez mais sua alma se cobria de um amor por si mesma, era a sua fã número um.Surgiu o primeiro namorado.Que delícia a paixão!Ela se lambuzava desse doce tão antigo e tão necessário.Seu pensamento voava, ela estava no vento, nas cores, no mar. As filhas cresciam, a vida seguia seu curso interminável de surpresas diárias, o mundo tinha um gosto tão diferente...Nunca mais havia pensado nele, nunca mais se odiou por ter perdido a competição.Ele, por sua vez, não cumpriu com a promessa feita a filha.Tempos depois ela soube que ele estava separado.Não se sentiu feliz tampouco vingada por isso.Ela estava feliz demais para abrir o seu coração para esse tipo de coisa.Nunca mais o viu desde aquele dia.




* * *




Ela olhou para céu da janela de seu carro, estava azul com um sol que parecia usar um casaco...Ainda assim, o dia estava gostoso: frio e calor na medida certa.Naquela manhã em especial, estava se sentido plena, inteira, uma flor.O namorado já havia telefonado e dito o “eu te amo” habitual, as meninas estavam bem, o trabalho tão tranqüilo, tudo estava em equilíbrio.O sinal ficou amarelo, ela parou e por um segundo observou as pessoas ao redor.Pareciam sós.Um homem de casaco azul chamou sua atenção.Ela conhecia aquele rosto.Um frio desceu espinha abaixo: era ele!Era ele!O coração parou por um tempo indeterminado e ela viu num flash toda a dor do passado.Viu e sentiu tudo de novo, com uma intensidade atroz.Ele parecia tão mais velho e tão menos feliz.Ele parecia o mesmo apesar dos danos.Bem ali na sua frente, seu algoz.Respirou aliviada.Ele atravessou e se foi.Junto com ele, o passado e o erro.Nunca mais sentir aquela dor, nunca mais!Sentiu-se livre.Ligou o rádio: Marisa Monte aqueceu o momento.O sinal abriu e lá se foi ela, sem olhar para trás, sem querer lembrar, sem tristeza, sem rancor. Anestesiada contra a dor, arrancou para as estrelas...Agora, apenas o céu poderia ser o limite.




Karla Bardanza

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